Linha Livre com Geraldo Castro | Arquivo por Hamilton Raposo
Terça-feira, 29 de setembro de 2020.

HISTÓRIAS DE SÃO LUÍS: A RESISTÊNCIA DE COMPANHEIRO E DO SOUSA.

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A partir desta data irei publicar os artigos do médico psiquiátrica Hamilton Raposo, sobre as boas lembranças de nossa São Luís.

Algumas lembranças não acontecem por acaso e algumas mudanças sociais e comportamentais que aconteceram em São Luís nas últimas décadas, abrem a gaveta da memória e vasculham comportamentos completamente desconhecidos pela nova sociedade, globalizada e informatizada da cidade. As frutas já não as mesmas, se antes nos deliciávamos com pitombas, tanjas do munim vendidas excepcionalmente na Praia do Barbosa, melancia de Arari comercializadas na Beira-Mar, bombom do mato e murici da Ponta d’Areia e no Mercado Central ou na feira da Praia Grande se podia comprar ingá, abricó, abil, jaca e bacuri todos procedentes da Maioba, Maiobinha ou do Mocajituba. Este assunto pode parecer coisas paleontológicas ao paladar gourmetizado desta nova geração acostumada com kiwi, pera, caqui, morango e um tal de mix de frutas vermelhas. Maria pretinha ninguém conhece, mas a jabuticaba fica parecendo que tem em nosso quintal. E por falar em quintal, alguma criança hoje sabe o que é um quintal?
As verduras eram de uma simplicidade espartana e com a garantia de serem orgânicas quando ninguém ainda falava ou dava esta garantia. Agrotóxico aqui pra nós era estrume de vaca. Comia-se vinagreira, jongome, maxixe, quiabo e jerimum. Tudo era comercializado no Mercado Central, no Galpão e na Feira da Praia Grande, e quem ia a estes mercados, necessariamente tinha que tomar mingau de milho ou de tapioca. Fazia parte das compras e da tradição.
Ninguém comprava mais do que devia, não existia freezer e geladeira era artigo de luxo, e quem desejava conservar algum alimento ou gelar alguma bebida, contentava-se na compra de barras de gelo no portinho com seu Ivaldo Santos ou em uma carroça que andava pelo centro da cidade tocando um sino avisando a passagem do gelo.
Hoje tudo se resume ao supermercado, é o passeio da família moderna e sem memória, encontro de idosos e parque de diversão das crianças, tudo se globalizou. Acabou a caderneta de compras. Ninguém cozinha mais com gordura Monte Branco, ninguém encera mais a casa, tudo é prático e rápido. A manteiga Real resistiu ao tempo, o sabão de Andiroba quase não se encontra mais, presuntada desapareceu, mais o leite Moça continua alimentando e fazendo festa juntamente com Neston, Todd e a Maizena.
A Rua Grande perdeu a Padaria Portuguesa e Cristal. As mercearias Brasil, Neves e Globo Azul não resistiram ao Prático Serviço Lusitana. A Mouraria e as lanchonetes da Ocapana e Acácia também se renderam ao Mac Donald e ao Bob’s. Sousa e Companheiro resistem bravamente à invasão dos fast foods, um no Beco da Pacotilha o outro em frente ao Banco do Brasil da Praia Grande.
A Mercearia Internacional ficava na Praça João Lisboa e exibia como novidade, em caixotes de madeira colocados na calçada, a sua mercadoria mais preciosa: uvas passas e maças argentinas. As maças argentinas, devido a precariedade no transporte, estavam quase sempre batidas, mas nem por isso deixavam de ser caras e elitizadas. Lembro-me de ter comido pela primeira vez por indicação médica, e se perguntarem por qual indicação, a resposta é imediata: desarranjo intestinal.
HAMILTON RAPOSO DE MIRANDA FILHO
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