Linha Livre com Geraldo Castro | HISTÓRIA DE UMA ÉPOCA É A PREVENÇÃO DE UM ERRO MAIOR (1964 / 2020). COINCIDÊNCIAS E SIMILIARIDADES VII
Quarta-feira, 28 de outubro de 2020.

HISTÓRIA DE UMA ÉPOCA É A PREVENÇÃO DE UM ERRO MAIOR (1964 / 2020). COINCIDÊNCIAS E SIMILIARIDADES VII

 

A década de 1960 foi caracterizada pelo desencadeamento de profundas tensões sociais. O mundo subdesenvolvido toma consciência que o processo científico e cultural, as possibilidades de desenvolvimento constituem fatores próprios da humanidade e não privilégios das nações desenvolvidas.

O Brasil fervilhava em reclamações sociais e da grande crise financeiro vivida na década. O Brasil era um país sem indústria e com uma agricultura essencialmente familiar, uma população imensamente analfabeta e com pouquíssimos serviços. Dependíamos de tudo do capital estrangeiro e em época de guerra fria, qualquer manifestação nacionalista era vista como apoio ao comunismo. Até hoje parte da população confunde ou desconhece o comunismo.

O Presidente da época, período anterior a 31 de março de 1964, era João Goulart, que havia assumido após séria crise institucional com a renúncia de Jânio Quadros, da qual era vice, e defendia calorosamente os princípios nacionalistas e uma ampla reforma para tirar o Brasil do atraso político-administrativo. João Goulart confiava exageradamente nas Forças Armadas.

Em janeiro de 1964 João Goulart defende a liberdade do Brasil perante os interesses das grandes nações, em particular dos Estados Unidos, defendeu a liberdade de Cuba em optar pelo socialismo e foi contra a violenta ocupação americana no Panamá.

O alto índice inflacionário, chegando a quase 100% ao mês, o arrocho salarial imposto a todas as categorias públicas e privadas, inclusive os militares e a crescente insatisfação da classe média em sua maioria cristã católica, que via o governo brasileiro como um vilão comunista, fez crescer uma ferrenha oposição política liderada pelos governadores dos estados da Guanabara, Carlos Lacerda, e do estado de Minas Gerais, Magalhães Pinto. Desenha-se o golpe, inicialmente político (civil) e depois golpe militar, que mergulhou o país em uma ditadura militar, um período de trevas.

A sobrevivência política de João Goulart, da classe política e do estado Democrático de Direito, dependia de medidas urgentes a serem adotadas e não o enfrentamento mediante a força militar que João Goulart tanto confiava. E assim, no dia 13 de março de 1964, no famoso discurso da Central do Brasil, João Goulart lança um pacote de medidas, na verdade uma proposta de reforma constitucional, chamado de Reformas de Base, com a finalidade de tirar o Brasil do atraso político, econômico e administrativo.

Resumo das Reformas de Base:
1-Reforma Agrária.
2-Reforma bancária (preservar o Banco do Brasil como bem público).
3-Reforma tributária (punição rigorosa aos sonegadores fiscais, estimular o investimento privado, taxar o lucro dos mais ricos e quem ganha mais paga mais).
4-Reforma administrativa (estabelecer sistema de mérito e criação de oportunidades iguais para todos).
5-Reforma empresarial (modificação na estrutura das empresas no sentido de atribuir ao trabalhador, responsabilidades e direitos paritários aos dos sócios e acionistas impedindo que a mais-valia seja absorvida na remuneração do capital; revisão na estrutura das empresas publicas tornando-as mais modernas).
6- Reforma política (adoção do voto ao analfabeto e do Praça, soldados e cabos, ilegibilidade aos alistáveis, eliminação das limitações decorrentes da Lei de Segurança Nacional, dando liberdade de organização para qualquer partido, inclusive o Comunista).
7-Reforma de Governo:
7.1-Financeira (contenção da inflação, auxílio aos estados para corrigir os déficits, estabelecer programas de desenvolvimentos, melhorar o aparelho de arrecadação, controle de crédito concedido pelo Banco do Brasil ao setor privado, afim de concentrar mais recursos no desenvolvimento econômico e bem-estar social, negociar moratória).
7.2-Comercial (monopólio do câmbio, monopólio do café, regulamentação das remessas financeiras para o exterior).
7.3-Cultural (erradicação do analfabetismo, reforma universitária com a participação efetiva dos estudantes na administração das universidades, modernização da cultura especialmente no campo das ciências e tecnologia, expansão da rede de ensino público e a criação dos centros de cultura popular).
7.4-Abastecimento: (combater a sonegação e otimizar o CADE, planejamento do abastecimento interno, estruturar as exportações).
7.5- Brasília (consolidar a nova capital).
7.6-Política externa (preservação de política independente e sem opção ideológica, coexistência pacífica com todos os países, inclusive os socialistas, participação efetiva na ONU, autodeterminação, solidariedade e apoio aos povos que lutam contra a dominação colonial).

O Presidente João Goulart não resistiu. O apoio dos governadores Leonel Brizola do Rio Grande do Sul e de Miguel Arraes de Pernambuco foram insuficientes para conter a insurgência dos militares, que abocanharam o poder e devoraram um por um dos civis que tramaram o golpe contra a democracia. O estado brasileiro mergulhou no obscurantismo do medo, do ódio e da violência.

E certo dia, o senador Tancredo Neves, vendo a traição de civis e o fechamento do Congresso Nacional, não se conteve e assim gritou: “Canalhas, canalhas, mil vezes canalhas…”

Ulisses Guimarães, anos depois, ao ler a Constituição Brasileira em 1988, afirmou que aquele que trair a Constituição Brasileira e a hegemonia dos poderes é um traidor da Pátria.

Em tempos de neofascismo tudo parece possível, os vestais da moralidade, os traidores do povo brasileiro sorriem e se banqueteiam no adorno periférico do poder, satisfazem-se com a bajulação e assim nada lhes sobrará, restará apenas o esgoto da história que sempre receberá o canalha e ao agressor do estado Democrático de Direito, o traidor da Pátria, e a eles nada mais lhe restara, apenas ratos e baratas.

HAMILTON RAPOSO DE MIRANDA FILHO

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